Atores

Keanu Reeves, o ator de ação que continua escolhendo a porta menos óbvia

O rosto mais bancável do cinema de ação americano passou trinta anos se recusando a se repetir. O currículo não desenha uma linha coerente, e é exatamente esse o argumento.
Penelope H. Fritz

Keanu Reeves é um dos raros protagonistas americanos cuja carreira se lê como uma série de viradas bruscas. O mesmo ator que reativou Matrix em 2021 e que está prestes a dublar um personagem em Toy Story 5 acaba de se interpretar em versão derrotada numa comédia de terapia dirigida por Jonah Hill, e o próximo filme na sua agenda é uma sátira de Ruben Östlund em que faz um eletricista preso a bordo de um avião que ninguém sabe mais pilotar. Nenhuma dessas decisões monta uma estratégia coerente. É exatamente essa a estratégia. A carreira que construiu em torno do rosto mais rentável do cinema de ação americano se gastou, a cada curva, em recusar-se a se repetir.

A história não começa em Los Angeles. Nasceu Keanu Charles Reeves em Beirute, filho de uma figurinista inglesa e de um pai americano de origem havaiana, e quicou entre Sydney, Nova York e Toronto antes de plantar a mala por alguns anos nos colégios da cidade canadense. Frequentou quatro deles, entre os quais a Etobicoke School of the Arts, da qual foi expulso, e nunca concluiu o ensino médio. Jogava hóquei como goleiro, apelidado de The Wall, e entrou no cinema pela porta de serviço, num teste para a sitcom canadense Hangin’ In. Continua, até hoje, cidadão canadense e nada mais.

Sua primeira década no cinema americano não se parecia com uma marca. Foi adolescente sensível em O Limite da Traição, michê meio entediado em Garotos de Programa, de Gus Van Sant, e visconde espartilhado em Ligações Perigosas, de Stephen Frears. Ao mesmo tempo era o slacker viajante do tempo de Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica, um filme tão comprometido com a própria bobagem que a crítica se recusou a princípio a levar o protagonista a sério. Pauline Kael chamou-o de bonito e inerte. O público leu a inércia como uma forma de quietude e ficou ali olhando para ver até onde ia.

Foi parar, em 1994, em Velocidade Máxima. Primeira virada: o ano em que o moleque do teatro canadense virou herói de ação americano sobre o chassi de uma única filmagem de Jan de Bont em Los Angeles. Recusou Velocidade Máxima 2 para interpretar Hamlet no Manitoba Theatre Centre, em Winnipeg, decisão que os obituários profissionais da Variety já arquivavam como suicídio de carreira. As Wachowski o escalaram como Neo cinco anos depois mesmo assim. Matrix, lançado no último fim de semana de Páscoa dos anos 1990, mais do que lançou uma franquia, instalou Reeves na arquitetura do que um filme de ação podia ser. Ele se tornou o rosto pelo qual Hollywood decodificava o próprio futuro.

A camada crítica que os admiradores costumam pular é que o Reeves dos anos 2000 estava, na tela, em apuros. As duas sequências de Matrix dividiram. A fase seguinte — A Casa do Lago, Os Reis da Rua, O Dia em que a Terra Parou, 47 Ronins — não encontrou um público que soubesse o que fazer com ele. Quando dirigiu Man of Tai Chi em 2013, a conversa sobre sua atuação tinha petrificado em torno da piada de que ele não sabia atuar. A piada deixava passar algo: ele havia se tornado incomumente bom em sustentar filmes que exigiam um centro imóvel dentro de planos caóticos, e a indústria havia parado de escrever esses filmes.

O segundo ato chegou em 2014 com um filhote roubado. John Wick: De Volta ao Jogo, de Chad Stahelski, recortou a contenção de Reeves como uma espécie de liturgia, e a franquia se tornou desde então a propriedade de ação de longa duração mais disciplinada do cinema americano, encerrada após quatro filmes e um spin-off de 2025 — Bailarina – Do Universo de John Wick — em que a participação de Reeves fez o trabalho incomum de confirmar que o cânone estava, enfim, fechado. O quinquênio em torno de John Wick reconstruiu por inteiro o seu lugar. O brinquedo motociclista Duke Caboom de Toy Story, Matrix Resurrections de Lana Wachowski, a comédia romântica Netflix com Ali Wong Always Be My Maybe e o lançamento de 615 mil cópias nas lojas de quadrinhos de BRZRKR, a série da Boom! Studios coescrita com Matt Kindt, não são o mesmo tipo de trabalho. Não devem ser.

O Keanu querido pela internet — o meme do sanduíche solitário no metrô, o santo não oficial que teria devolvido aos técnicos os pontos de Matrix — não é uma pessoa separada do operador de Hollywood. Sua produtora, Company Films, montou na Netflix a adaptação live-action de BRZRKR, com Justin Lin na direção e Mattson Tomlin no roteiro, além de uma série de anime de acompanhamento e de um videogame anunciado em fevereiro de 2026 com Lionsgate e Saber Interactive. Passou quase dois anos em turnê com a Dogstar, o trio de baixo e voz que formou três décadas atrás com Bret Domrose e Rob Mailhouse, que em 2023 publicou o primeiro disco em vinte anos, Somewhere Between the Power Lines and Palm Trees. Está com a artista Alexandra Grant pelo menos desde 2019, colaborou com ela em dois livros antes de a relação ser pública, e continua. Nada disso é acessório ao trabalho na tela: é a mesma biografia.

2026 é o teste da virada. Outcome, a comédia da Apple TV+ dirigida por Jonah Hill que estreou em 10 de abril, parou em 28 por cento no Rotten Tomatoes — a sua pior estreia como protagonista em dez anos. Cinco meses depois, em 19 de junho, Toy Story 5 devolve Duke Caboom à marca que paga. Em seguida vem The Entertainment System Is Down, de Östlund, adiado para depois de Cannes 2026 e possivelmente guardado para 2027, em que Reeves interpreta um eletricista a bordo de um avião cujos pilotos desistiram. Está também filmando Shiver, um thriller de sobrevivência no Caribe que entrou em produção na República Dominicana em fevereiro de 2026, e o live-action de BRZRKR segue como a maior peça ainda por construir sobre a sua mesa. A pergunta é se o astro de ação que quase todo mundo acha já ter catalogado guarda outra porta atrás de si, e se pretende atravessá-la.

Discussão

Há 0 comentários.