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As Aventuras de Pi prova que um tigre digital pode sustentar um filme sobre fé e ainda parecer vivo

Martha O'Hara
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Um adolescente numa ponta do bote salva-vidas, um tigre-de-bengala na outra e o Pacífico por todos os lados. Essa é a imagem do pôster e o motivo pelo qual a maioria das pessoas compra ingresso para As Aventuras de Pi, de Ang Lee. Uma premissa tão boa poderia ter ido direto para o mar. Lee, porém, segura a história e dedica a ela um primeiro ato longo. No fim, o filme pergunta o que significa acreditar numa história e responde com uma aposta que poucas adaptações de um romance tão querido ousariam fazer.

A história vem do romance de Yann Martel, publicado no início dos anos 2000, vencedor do Man Booker Prize no ano seguinte e com mais de dez milhões de exemplares vendidos, embora pelo menos cinco editoras de Londres o tenham rejeitado antes. David Magee escreveu o roteiro. Piscine Molitor Patel cresce em Pondicherry, filho do dono de um zoológico, no enclave francês que só passou a fazer parte da Índia em meados do século XX, como lembra o The Guardian. A narrativa encaixa um narrador dentro de outro. Um escritor canadense sem nome, interpretado por Rafe Spall e que, segundo o The Guardian, seria o próprio Martel, ouve dizer que há um homem em Montreal com uma história capaz de fazê-lo acreditar em Deus. Esse homem é Pi adulto, Irrfan Khan, professor de filosofia que começa pelo início.

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O começo é uma brincadeira com nomes. Pi foi batizado em homenagem à Piscine Molitor, piscina parisiense adorada por um tio. Depois que os colegas de escola começaram a fazer piadas com a palavra “piscina”, ele reinventou o próprio nome como a letra grega. Três atores acompanham sua trajetória da infância até o bote salva-vidas: Gautam Belur aos cinco anos, Ayush Tandon aos doze e Suraj Sharma aos dezesseis. No romance, o tigre também ganha um nome cômico: Richard Parker, resultado de um erro de registro que trocou o nome do animal pelo do homem que o capturou. O filme funciona melhor quando brinca com essas pequenas absurdidades. Elas deixam claro, desde cedo, que a solenidade vem acompanhada de senso de humor e que o diretor não espera que o público aceite toda grande ideia sem questionar.

Há também o visual. O The Guardian elogia o clima de mistério e magia do filme, das primeiras imagens dos animais desfilando e se exibindo sob o sol do zoológico aos créditos finais, com peixes e objetos náuticos cintilando sob o mar, e atribui à alucinante experiência em 3D o efeito ainda mais intenso. Já a Film Comment, bem mais comedida, descreve a abertura como um livro ilustrado que se desdobra diante dos olhos, com girafas, macacos, flamingos cor-de-rosa e uma preguiça pendurada numa árvore. Ainda assim, reconhece que este é o filme visualmente mais deslumbrante da carreira de Lee. Fico com os admiradores. A sequência do zoológico é descaradamente bonita, mas também introduz a ideia de que cada criatura dessa história será observada duas vezes: primeiro como animal, depois como símbolo. O crítico do The Movie Elite desconfia das tendências mais artísticas de Lee e cita A Tempestade de Gelo como um dos filmes mais entediantes a que já assistiu. Mesmo assim, considera incrível o naufrágio e diz que não conseguiu distinguir o tigre de um animal de verdade, apesar de procurar qualquer sinal de falsidade. Esse é o teste certo para um filme que depende de um felino digital para carregar metade das cenas.

A formação espiritual de Pi dá propósito ao primeiro ato. Criado como hindu e vegetariano, aos catorze anos ele conhece o cristianismo e o islamismo e decide seguir as três religiões, para consternação dos pais e de seus mentores religiosos, porque só quer amar a Deus. Seu pai, Santosh Patel, interpretado por Adil Hussain, é o racionalista que não quer saber de nada disso. O The Guardian observa que o filme aborda essa jornada espiritual com humor respeitoso, enquanto o menino rejeita o racionalismo paterno, e que esse tom é a melhor qualidade da produção. O filme não ridiculariza a fé do garoto nem permite que ela vire sermão. Tabu interpreta sua mãe, Gita, e Ravi, o irmão, é vivido em três fases por Ayaan Khan, Mohd Abbas Khaleeli e Vibish Sivakumar. Juntos, eles dão forma a uma família em poucos traços — o bastante para que a perda posterior tenha peso.

O preço de tanta paciência é o ritmo. O crítico do The Movie Elite diz que, nos primeiros quarenta minutos, suas desconfianças quase se confirmaram: o filme era divertido e bem interpretado, mas, para ele, não chegava a lugar algum. Ele se pergunta por que a história passa tanto tempo apresentando um personagem antes de deixá-lo à deriva. A crítica é justa, e quem estiver com pressa vai sentir isso. Minha resposta é que a preparação não é em vão. Quando o navio afunda e Pi fica sozinho com uma hiena, uma zebra, um orangotango e o tigre, a fé construída no primeiro ato é tudo o que lhe resta para se agarrar. O mesmo crítico admite que, depois que Pi fica à deriva, o filme ganha ritmo e segue em frente, e que as cenas entre Pi e Richard Parker, cercados apenas por água, compensam a longa espera.

É no bote salva-vidas que Lee faz jus à própria reputação. A Simbasible destaca a relação entre Pi e o tigre, que considera fascinante, e elogia o filme por mostrar os animais como animais, sem humanizá-los em excesso. Concordo, e essa escolha mantém a tensão durante o trecho central. Richard Parker não é um bichinho de estimação nem um coadjuvante de desenho animado, e a sobrevivência do garoto depende de respeitar isso. O mesmo crítico se mostra menos convencido pelo protagonista. Para ele, Sharma é bom, mas não chega a impressionar, e o personagem deveria ter mais profundidade. Acho que a crítica tem alguma razão. O roteiro faz Pi passar por muita coisa, mas lhe dá relativamente poucas oportunidades de falar sobre isso. Khan, nas cenas que enquadram a narrativa, oferece parte da reflexão que o garoto ainda não consegue expressar, e essa divisão de tarefas é a maneira que o filme encontra para preencher a lacuna.

Então vem a virada para a qual toda a estrutura vinha se preparando. O filme apresenta duas versões da história, uma com animais e outra sem, e pergunta ao público qual delas prefere. A Simbasible considerou o desfecho duplo profundo, instigante e emocionalmente recompensador. A mesma crítica admite que, às vezes, o filme corre o risco de ficar sentimental demais, mas Lee encontra o equilíbrio entre emoção e realismo. A Film Comment é mais dura com o diretor. Acusa Lee de estar descaradamente atrás do Oscar e de tratar com cautela constante um material de origem de qualidade; diz ainda que o filme é tão inofensivo que fica difícil entender por que deixa um gosto ruim. Entendo a crítica à cautela. Um filme tão empenhado em agradar mantém suas arestas mais afiadas fora do alcance, e a segunda versão da história nunca machuca tanto quanto poderia. Ainda assim, o final funciona porque torna o público cúmplice da escolha. Queremos o tigre, e o filme sabe disso.

Os números dão razão aos críticos que gostaram do filme. Roger Ebert o chamou de um feito milagroso de narrativa e um marco de domínio visual. O Rotten Tomatoes registra 86% no Tomatometer e uma duração de duas horas e cinco minutos. A Simbasible informa que a bilheteria passou dos 600 milhões e que o filme recebeu onze indicações ao Oscar, resultado que rendeu a Lee sua segunda estatueta de direção, depois de O Segredo de Brokeback Mountain. Poucos diretores conseguiriam passar de um faroeste gay no Wyoming para uma fábula de náufrago no Pacífico sem perder o rumo. O The Guardian acompanha a carreira de Lee da Inglaterra de Jane Austen à América de Nixon, e da China medieval à Xangai em tempos de guerra, com o estilo mudando a cada novo tema. As Aventuras de Pi dá continuidade a essa trajetória, em vez de repetir qualquer uma de suas etapas.

O primeiro ato se arrasta, o herói tem menos camadas do que a provação que enfrenta e a cautela pode soar como receio. O que o filme acerta é mais difícil de encontrar. Ele aposta numa ideia complexa: a história que escolhemos contar sobre o sofrimento é, por si só, um ato de fé. Dá forma a essa ideia com um garoto, um tigre e um oceano, sem deixar que o espetáculo afogue o argumento. O The Guardian compara o tom ao de Robinson Crusoe reescrito por Laurence Sterne — uma comparação generosa, mas pertinente. A pergunta sobre em qual versão da verdade você preferiria viver continua em aberto quando os créditos terminam, e o filme aceita deixá-la assim.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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