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‘Primetime’: por que o filme de Robert Pattinson sobre Chris Hansen escalou o ex-astro mirim Jonathan Lipnicki como predador

Camille Lefèvre
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Lance Oppenheim colocou de propósito o garoto de Jerry Maguire e Stuart Little dentro da casa-armadilha de To Catch a Predator, e os motivos dizem tanto sobre o público do programa quanto sobre o seu apresentador.

Quase tudo o que se disse sobre Primetime se fixa em um único rosto: o de Robert Pattinson, que vive Chris Hansen no auge de To Catch a Predator, enquanto o Hansen de verdade insiste que tudo aquilo é ficção. Mas a escolha de elenco que mais diz sobre o filme de Lance Oppenheim está mais abaixo na ordem do dia. Jonathan Lipnicki, o menino que em Jerry Maguire ensinou a Tom Cruise que a cabeça humana pesa oito libras, interpreta um dos homens que o programa foi feito para pegar.

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Seria fácil arquivar isso como escalação para chocar, e Oppenheim sabia disso. A escolha funciona mais como um argumento sobre o modo como o programa operava. Um filme sobre uma franquia de TV que vivia de exposição pública pega emprestada a única coisa que um roteiro não consegue escrever do zero, a história de um ator nas telas, e deixa a memória do próprio público fazer o resto.

O que é Primetime e onde Lipnicki entra

Primetime, lançado pela A24, dramatiza o período de meados dos anos 2000 em que os segmentos de To Catch a Predator apresentados por Hansen dentro do Dateline, da rede NBC, estavam entre as horas mais comentadas da televisão americana. O formato, lançado em 2004, uniu a emissora ao grupo civil de vigilância Perverted Justice, cujas iscas adultas se passavam por menores em salas de bate-papo. Quando as conversas ganhavam teor sexual, os homens eram convidados para uma casa, onde Hansen entrava com as impressões das mensagens na mão e soltava seu bordão, “Have a seat” (“Sente-se”). Muitas vezes a polícia esperava do lado de fora. A NBC deixou de exibir os segmentos em 2007.

O roteiro é o primeiro de Ajon Singh e adapta livremente o artigo que Luke Dittrich publicou em 2007 na Esquire, “Tonight on Dateline This Man Will Die” (“Hoje no Dateline este homem vai morrer”), um texto sobre uma operação de 2006 no Texas que terminou com a morte do homem que era o alvo. O filme condensa os acontecimentos em um único ano, 2006. Pattinson interpreta Hansen e também produz, ao lado de Lars Knudsen e Ari Aster. Merritt Wever vive sua produtora, Andie Bender. Skyler Gisondo interpreta Dan, um jovem contratado como isca para se passar por adolescente, e Phoebe Bridgers faz Del, outra isca. Matthew Maher é Xavier Von Erck, do Perverted Justice, e Alex Winter, Anna Faris e Bokeem Woodbine completam um elenco numeroso.

O papel de Lipnicki é pequeno e certeiro. Ele interpreta um homem conhecido apenas pelo nome de usuário, Crazyfrog73, que chega à casa-armadilha esperando encontrar o garoto que a isca de Gisondo finge ser, e é flagrado na cozinha no primeiro dia de trabalho de Dan. A cena, amplamente descrita desde a estreia do filme em Veneza e comentada abertamente pelo próprio Lipnicki, tem nu frontal completo e uma lata de chantili.

Por que Oppenheim queria o garoto de Jerry Maguire

Oppenheim foi explícito sobre a lógica. Na coletiva de imprensa em Veneza, disse que escalar Lipnicki e Gisondo foi uma decisão deliberada, ligada ao passado dos dois como atores mirins, uma forma de “pegar a bagagem que eles traziam dos filmes anteriores e descobrir novas maneiras de fazê-los trocar a pele de quem eram em outros filmes”. Diretor e ator têm quase a mesma idade, e Oppenheim cresceu vendo Lipnicki na telona. “Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Jerry Maguire, foi uma referência para nós enquanto fazíamos Primetime”, contou. Depois de exibir o filme de Cameron Crowe para a equipe na pré-produção, ele não parava de se perguntar por onde andava o astro mirim daquele filme.

A resposta estava guardada no celular dele. Segundo Lipnicki, Oppenheim tinha visto uma entrevista sua anos antes e salvou o nome dele nas notas do iPhone, numa lista de pessoas com quem queria trabalhar. A produção de elenco pediu um self-tape, um teste gravado pelo próprio ator, porque não havia nenhuma imagem recente dele. Ele recebeu a proposta e mesmo assim hesitou, até que o diretor ligou depois de um dia de filmagem: “Eu sei como isso parece. Não quero que pareça uma escalação de efeito. Quero você envolvido no processo criativo e quero que saiba de onde isso veio”. Os dois trocaram ideias sobre a aparência e o comportamento do personagem, até o cabelo descolorido que Lipnicki hoje chama de cápsula do tempo daquela época.

O que dá carga à escalação é a trajetória do próprio ator, que corre no sentido oposto à do homem no centro do filme. Lipnicki estreou aos seis anos, contracenando com Tom Cruise e Renée Zellweger, e emendou direto em Stuart Little. Ele se lembra de entrevistas de divulgação desse filme em que jornalistas perguntavam a uma criança se ela ia se envolver com drogas, e de uma juventude sob “muita pressão para não virar um desastre”. Ele se considera sortudo: teve bons pais, estudou em escola pública e viveu uma infância “tão normal quanto possível com essa coisa a mais grudada nela”.

Já adulto, deixou Los Angeles, se desfez de tudo o que tinha e rodou o país em seu Jeep Wrangler, seu “momento Comer, Rezar, Amar”, antes de se estabelecer em Oklahoma, onde dá aulas de atuação, produz e toca alguns outros negócios. Ele descreve Primetime como parte de uma decisão de parar de se preocupar com a opinião alheia: “Não tenho nenhum controle sobre o que as pessoas vão pensar, e não vou mais me preocupar com isso”. Sobre o papel em si, é direto. “Como atores, a gente reza por material sombrio”, diz, e se algo te dá medo, “provavelmente você deve fazer”.

Um apresentador que vive da audiência, um ator que se afastou dela

Coloque isso ao lado do Hansen que o filme constrói. Boa parte da discussão desde Veneza girou em torno de como Primetime retrata seu apresentador: como um homem que se mede pelo tamanho da audiência e pelos prêmios que não ganhou. O motor desse personagem é a opinião dos outros. A liberdade que Lipnicki declara é justamente recusá-la. O ator que se afastou do olhar do público é colocado dentro da casa construída para alimentá-lo, e a escalação empurra a pergunta da vaidade de um apresentador para as pessoas em casa que fizeram do programa um sucesso.

O próprio Lipnicki evita interpretar demais. Quando perguntam se colocar ex-astros mirins em um filme sobre To Catch a Predator diz algo sobre como Hollywood trata as crianças, ele responde que há “muitas formas de enxergar isso” e chama o filme de “um comentário sobre certos elementos daquele mundo”. Ele assistia ao programa original na época e voltou a ele antes das filmagens. “Se você tivesse dito para o meu eu de 14 anos que eu estaria num filme sobre isso, eu teria respondido: ‘De jeito nenhum’”.

Oppenheim chega à ficção vindo do documentário. Seus documentários Some Kind of Heaven, ambientado em The Villages, a comunidade de aposentados da Flórida, e Ren Faire, sobre uma feira renascentista no Texas, foram construídos em torno de pessoas reais cuja persona pública já chegava pronta. Primetime é seu primeiro longa de ficção, rodado em Nova Orleans no início de 2025, com fotografia de David Bolen e trilha de seu parceiro habitual Ari Balouzian. Ele usa a biografia real de um ator como um documentário usa seu personagem: como material que já chega carregado. Seu próximo documentário, You Can See Everything, também está previsto para este outono no Hemisfério Norte.

Onde a ficção se afasta dos fatos

O mesmo método é o ponto em que Primetime fica mais exposto. O momento do chantili, a imagem mais comentada do filme, não tem equivalente nas transmissões reais: alguns homens flagrados em To Catch a Predator chegaram, sim, nus às casas-armadilha, mas nada parecido com aquela cena foi ao ar. As invenções do filme geraram críticas de que ele distorce o registro de um programa real, construído sobre casos reais. Hansen assistiu ao filme numa sala lotada na Times Square e disse ao público para entrar sabendo que é “absolutamente um retrato ficcional de mim, dos meus colegas, da série”. Quando Jesse Watters pediu que desse uma nota à atuação de Pattinson, ele deu D. Se o argumento de Oppenheim mora na invenção, a acusação contra ele também mora.

Primetime estreou na competição do 83º Festival de Veneza em 5 de setembro e chegou aos cinemas dos Estados Unidos em 25 de setembro, dois dias depois de estrear na França e na Alemanha. O filme tem 110 minutos e recebeu classificação R nos EUA. Lipnicki, de 35 anos, tem mais coisas a caminho: Williston, filme com Matt Walsh e Geneva Carr do qual foi produtor executivo, adaptado de uma peça teatral pelo roteirista e diretor Adam Seidel, estreia em novembro. Ele também tem um papel pequeno em Butcher’s War, com Aaron Eckhart, e atua e produz uma comédia romântica, Mazel Tough.

Ele ainda é mais conhecido por uma frase sobre quanto pesa uma cabeça humana. Primetime aposta sua cena mais desconfortável nessa lembrança: o público entra na cozinha de Hansen esperando o garotinho e encontra ali, no lugar dele, o verdadeiro produto do programa.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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