Filmes

Wicker casa Olivia Colman com um Alexander Skarsgård de vime, e a vila se volta contra ela

Peter Dinklage tece o marido, Elizabeth Debicki é uma vizinha e ninguém na vila tem nome
Molly Se-kyung
Adicione-nos no Google

Em Wicker, ninguém tem nome. Os moradores da vila são o seu ofício e o seu casamento: o Padeiro, o Estalajadeiro, o Médico, a Esposa do Alfaiate. Olivia Colman é a Pescadora, solteira, fedorenta segundo a vizinhança e alvo de chacota pelas duas coisas. Cansada, ela bate à porta do cesteiro, vivido por Peter Dinklage, e paga para que ele lhe teça um marido. O que ele entrega é Alexander Skarsgård, feito de vime.

Essa falta de nomes é o motor da premissa. Alex Huston Fischer e Eleanor Wilson, que escreveram e dirigiram o filme a quatro mãos a partir do conto The Wicker Husband, de Ursula Wills-Jones, construíram uma vila onde cada pessoa é uma função. E uma função não tem espaço para uma mulher feliz fora da sua. O marido é o único personagem fabricado, literalmente, para um só propósito. Segundo os críticos que viram o filme em Sundance, ele também é o que as mulheres da vila passam a cobiçar.

YouTube video

Skarsgård vira objeto, Colman vira a mulher que ninguém queria

O elenco apresenta a tese antes da primeira fala. Colman, vencedora do Oscar e quase sempre associada ao humor afiado e à contenção, assume o papel que o conto de Wills-Jones chama de “a moça feia”. Karen Peterson, do AwardsWatch, escreveu que a atriz o constrói tanto pelo jeito quanto pela aparência. Skarsgård, vencedor do Globo de Ouro cujos papéis recentes, de Big Little Lies a O Homem do Norte, apostavam sobretudo na ameaça, vira uma coisa fabricada: o TheWrap relatou que ele foi “transformado da cabeça aos pés em um homem de madeira”. Dinklage o tece. Elizabeth Debicki é a Esposa do Alfaiate, uma das mulheres casadas da vila.

Juntas, essas quatro escolhas deixam a piada clara. A vila decide quem merece ser desejado. O filme entrega o desejo à mulher que a vila colocava em último lugar e lhe dá um parceiro que mais ninguém escolheu.

De uma comédia de invasão alienígena à maior sala de Sundance

Fischer e Wilson estrearam com Save Yourselves!, uma comédia pequena sobre um casal que se desliga do celular justamente quando alienígenas invadem a Terra. Wicker é o segundo longa da dupla e foi exibido com sessão lotada no Eccles, a maior sala de Sundance, segundo o AwardsWatch. O salto é de escala, não de assunto. Os dois filmes colocam um casal sob pressão externa e observam o que ele faz com isso. Aqui, a pressão é uma ordem social inteira.

A Black Bear comprou os direitos para a América do Norte depois do festival e também cuida das vendas internacionais. Topic Studios e Tango Entertainment financiaram o filme, a Votiv bancou o desenvolvimento e Colman é produtora pela sua empresa South of the River Pictures, ao lado de Ed Sinclair e Tom Carver, além de David Michôd pela Yoki. As filmagens aconteceram em Budapeste.

O Deadline o descreve, com base na sinopse oficial, como “uma fábula cômica sobre sexo, casamento e os absurdos das convenções sociais”. Skarsgård contou à agência EFE que foi a crítica social que o atraiu: o roteiro, disse, falava “sobre a nossa sociedade, sobre o patriarcado, a instituição do casamento e suas partes absurdas” de um jeito muito divertido. Colman admitiu à EFE que o filme tem aspectos feministas, mas sabe que o rótulo afasta muita gente. “Se dizem isso, então não são o tipo de gente que eu quero que veja o filme”, resumiu.

Onde a piada de vime começa a desfiar

Nem toda a crítica se convenceu. Chase Hutchinson, do TheWrap, chamou o filme de “um coquetel às vezes encantador de bobagem e sinceridade que ainda assim parece estranhamente diluído” e escreveu que a história, “arrastada e previsível”, perde o fôlego depois que a primeira piada se repete. Ele destacou Dinklage, que “rouba todas as cenas em que aparece”, embora lamente que o filme não o aproveite mais.

A premissa carrega ainda um problema que o material de divulgação não resolve. Um marido construído sob medida é, por definição, uma fantasia realizada. A defesa de Skarsgård à EFE é que o personagem “foi criado para se casar com a pescadora, mas seus sentimentos são reais”. É a leitura de um ator, não uma prova. Se um homem fabricado não pode recusar, o romance é uma compra, e a sátira de uma vila que trata o casamento como transação corre o risco de virar mais uma transação. A julgar pelas críticas, o filme se interessa mais pela reação da vila do que por responder a essa pergunta.

Quem está em Wicker e quem fez o filme

Além de Colman, Skarsgård, Dinklage e Debicki, o elenco reúne Marli Siu, Nabhaan Rizwan como o Alfaiate, Richard E. Grant como o Médico, Kiell Smith-Bynoe como o Estalajadeiro, Gustav Lindh, Ella Bruccoleri, Ben Ashenden e Phil Daniels. A fotografia é de Lol Crawley, a montagem de Sofi Marshall e a trilha de Anna Meredith. Dev Patel chegou a ser anunciado ao lado de Colman antes de Skarsgård assumir o papel.

Olivia Colman in a straw hat as the Fisherwoman in a candlelit room in Wicker (2026)
Olivia Colman as the Fisherwoman in Wicker (2026)

Nos Estados Unidos, a Black Bear lançou Wicker em 23 de outubro: tinha anunciado uma estreia limitada com expansão nacional no dia 30, mas as projeções da Variety para o fim de semana já contavam 1.471 salas e entre 6 e 8 milhões de dólares, contra Clayface, Wildwood, Ali G: Who Iz I? e Klara and the Sun. O filme chega aos cinemas do Reino Unido em 30 de outubro. Ainda não há previsão de estreia no Brasil. Tem 105 minutos e soma 94% de críticas positivas entre 109 no Rotten Tomatoes.

Nos créditos, Skarsgård aparece apenas como o Marido de Vime. Numa vila em que o nome é um ofício, talvez seja a linha mais honesta do filme: ele foi feito para ser uma coisa só, e toda a aposta de Wicker é que a mulher que pagou por ele possa querer mais.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Tags: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Há 0 comentários.