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Rita Hayworth: a dançarina que Hollywood reescreveu como deusa

Penelope H. Fritz
Rita Hayworth
Rita Hayworth
Nascimento17 de outubro de 1918
Brooklyn, New York City, New York, USA
Falecimento14 de maio de 1987 (68)
OcupaçãoAtor
Conhecido porGilda, A Dama de Shanghai, Paraíso Infernal
PrêmiosHollywood Walk of Fame (1960) · Globo de Ouro · AFI's 100 Years…100 Stars honoree (1999)

A ficha que a Columbia mantinha sobre Margarita Carmen Cansino tem mais diagramas do que diálogo. Uma linha do cabelo marcada para depilação, um perfil resombreado nos testes de luz, um sobrenome riscado e substituído. Muito antes de existir uma Rita Hayworth por quem se apaixonar, havia um trabalho de cartório para garantir que ninguém a confundisse com o que ela de fato era: a filha de um espanhol. A mulher que tira a luva em Gilda não inventou esse gesto diante da câmera. Vinha ensaiando-o a vida inteira — o ofício de tornar o próprio corpo legível para uma plateia que não a queria de outro jeito.

Eduardo Cansino era sevilhano, de Castilleja de la Cuesta, cigano de origem, filho do mestre de dança Antonio Cansino, e criou a filha dentro do ofício. Aos doze, ela já subia ao palco com o pai, no número dos Dancing Cansinos, em clubes de Tijuana e cabarés da fronteira mexicana porque a Califórnia proibia menores em cabaré. A família passava de hotel em teatro sem cachê garantido; a menina aprendeu postura antes de aprender a ler direito. Nascida em Manhattan, em 1918, filha de Cansino e da bailarina do Ziegfeld Volga Hayworth, entrou em Hollywood com duas etnias, dois nomes artísticos e um ritmo inconfundível antes que alguém pensasse em refazê-la.

A Fox a contratou primeiro, creditou-a como Rita Cansino e a estacionou em papéis latinos que não levavam a lugar nenhum. Harry Cohn, chefe da Columbia, deu uma segunda olhada e decidiu que o projeto era maior que um elenco. O sobrenome Hayworth, emprestado da mãe, substituiu Cansino. Sessões dolorosas de eletrólise lhe ergueram a linha do cabelo — os historiadores falam em centímetros — para alargar a testa e fazer o rosto ler anglo-americano. O preto azeviche escorreu para o ruivo acobreado. O estúdio rebatizou-a Rita Hayworth e encaixou-a em Paraíso Infernal, de Howard Hawks, em 1939. Papel pequeno no filme alheio; saiu dele com o nome em cima.

Os anos quarenta se arrumaram ao redor dela. Sangue e Areia, em Technicolor, provou que o ruivo novo passava na tela. Ao Compasso do Amor e Bonita Como Nunca a colocaram com Fred Astaire — uma das poucas parceiras com quem ele dançou de igual para igual — e Modelos fez o mesmo com Gene Kelly. Depois veio Gilda, em 1946. O vestido de cetim preto e a canção que ela não cantava de fato organizaram tudo o que a Columbia montou por uma década. A Dama de Xangai chegou no ano seguinte, com Orson Welles dirigindo a esposa já separada e alvejando-lhe os cabelos para o platinado diante da câmera — um gesto que alguns ainda leem como sabotagem particular. A bilheteria castigou. A crítica resgatou depois.

O problema de chamá-la de ícone é que a iconografia faz quase todo o trabalho e a atriz fica curta no relato. A imagem de Gilda — a chicotada do cabelo, o quadril imperturbável — é tão legível que o público confunde com a atuação inteira. O que se vê pior, porque o estúdio se empenhou em esconder, é o quanto a dança desses filmes é dança de uma Cansino. A técnica vinha de uma escola espanhola. O bolero era a marca registrada do avô. O marketing da Columbia vendia glamour americano inventado na hora; na tela passavam pés andaluzes disfarçados de outra coisa. Hayworth dizia a mais de um repórter, com um cansaço que atravessa as décadas, que os homens dormiam com Gilda e acordavam com ela.

Rita Hayworth
Rita Hayworth · International News Photo / Public domain (Wikimedia Commons)

Os casamentos — cinco, entre eles Orson Welles e o príncipe Aly Khan — renderam, por temporadas, mais imprensa do que cinema. Voltou ao set para Uma Viúva em Trinidad em 1952, e o filme arrecadou mais do que Gilda, dado que o peso do título anterior costuma soterrar. Meus Dois Carinhos, com Frank Sinatra e Kim Novak, permitiu que ela interpretasse maturidade e malícia; no ano seguinte, dirigida por Delbert Mann, Vidas Separadas rendeu suas melhores resenhas tardias. Seu último filme foi The Wrath of God, em 1972. Já vinha perdendo palavras.

O diagnóstico formal de Alzheimer veio em 1980, depois de anos em que a imprensa havia lido o comportamento dela no set primeiro como bebida, depois como temperamento, depois como decadência. A princesa Yasmin Aga Khan, filha dela com Aly Khan, passou as décadas seguintes corrigindo essa leitura. Hayworth foi um dos primeiros casos públicos da doença nos Estados Unidos, e o nome dela ficou costurado a um trabalho de fundação que antes não existia. Morreu no apartamento de Manhattan em 14 de maio de 1987, aos sessenta e oito anos.

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A Gala Rita Hayworth se reúne no Old Post Office, em Chicago, em 9 de maio de 2026, o benefício anual da Alzheimer’s Association que a filha construiu em torno desse nome. New York Theatre Barn desenvolve um musical, RITA: More Than A Memory, justamente sobre o que o estúdio passou anos apagando: a família espanhola, o avô bailarino, a mulher embaixo do sobrenome. A obra que deixou continua sustentando aquilo que o marketing sempre negou: a deusa da tela era uma Cansino mexendo-se com o pé do pai, e a pergunta útil hoje é o que ela teria feito se a tivessem deixado continuar visível.

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