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Batman finalmente vira detetive, e o noir de Reeves quase sempre funciona

Matt Reeves, 2022: uma Gotham corroída pela corrupção e um Pattinson que domina a tela.
Martha O'Hara
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Batman, de Matt Reeves, estreou nos Estados Unidos em 4 de março de 2022, três dias depois da première no Lincoln Center, em Nova York. O filme abre mão da história de origem e pega o herói no segundo ano de combate ao crime em Gotham. Ali ele descobre que a corrupção da cidade tem ligações com a própria família Wayne, enquanto persegue o Charada, um serial killer que mira a elite local. O Punch Drunk Critics resume bem ao dizer que o longa é menos um filme de super-herói e mais um mistério de detetive, um policial passado numa cidade rasgada por corrupção e privilégio. Reeves trata Batman como detetive antes de tratá-lo como lutador, e isso muda o ritmo de tudo. Christina Newland, no iNews, deu quatro estrelas de cinco e falou de uma combinação sedutora do familiar com o novo.

O que mais chama atenção é a recusa de Reeves em repetir o ritual. Como observa o Punch Drunk Critics, ele poupa o público de mais um flashback do assassinato dos pais de Bruce Wayne. O trauma continua ali, empurrando o herói para a vida noturna e afastando-o dos negócios da família, mas não vira cena de abertura obrigatória. Nesse segundo ano de atividade, o Batman é mais mito e presença física do que pessoa. Os criminosos de rua o temem, e o Bat-sinal no céu avisa que é hora de sumir. A polícia desconfia daquela figura de máscara, com a exceção de James Gordon, vivido por Jeffrey Wright, que parece ser o único a confiar nele. O The Holy Goof vai na mesma direção e elogia a ideia de um Batman que trabalha com a polícia e não contra ela, mesmo que isso nem sempre agrade aos policiais.

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Robert Pattinson é o centro dessa aposta. O Guardian o descreve como um Bruce Wayne de astro de rock recluso e decadente, magro e dândi no terno preto, com mechas de cabelo escuro caindo sobre o rosto. Quando ele reaparece de máscara e uniforme, o crítico vê o corpo inteiro convertido numa impassibilidade de bloco de pedra. O contraste entre o aristocrata apagado e o vulto blindado sustenta o personagem sem grandes discursos. O Punch Drunk Critics chega a chamar a interpretação de Pattinson de verdadeiramente de outro mundo. É um entusiasmo compreensível, embora a duração do filme peça fôlego a quem assiste.

O elenco de apoio sustenta o conjunto. O Guardian destaca as atuações discretas e boas de Jeffrey Wright e John Turturro, este como o mafioso Carmine Falcone, e resume Zoë Kravitz numa frase: o superpoder dela é o carisma. Como Selina Kyle, Kravitz divide com Bruce o centro da trama. O The Holy Goof gosta de que os Wayne deixem de ser retratados como família perfeita e de que alguém, enfim, toque no lado sombrio das elites de Gotham e na corrupção que as cerca. Andy Serkis interpreta Alfred, e o mesmo site o considera o melhor Alfred, mesmo com tantas versões ilustres antes dele. Colin Farrell, irreconhecível como o Pinguim, aparece entre os gângsteres que tomaram a cidade, segundo o Punch Drunk Critics. O personagem ganhou uma série derivada com o próprio Farrell, que estreou na HBO no fim de 2024.

O Charada de Paul Dano é a peça central da trama. O Punch Drunk Critics o separa com clareza da versão colorida de Jim Carrey, sem chapéu de brincadeira nem rimas infantis. Numa cena do início, esse Charada se esconde nas sombras e mata o prefeito a pancadas. O crítico o compara a um assassino de filme de David Fincher, brutal e espirituoso, deixando pistas de uma conspiração maior num duelo intelectual pensado só para os olhos de Batman. O Guardian vê o mesmo vilão de outro ângulo: um sujeito de máscara de borracha que faz aparições nas redes sociais, indignado com o vício numa droga nova chamada “drops” e com a omissão das autoridades. Ele passa a eliminar o establishment corrupto de Gotham, incluindo o prefeito Don Mitchell e o promotor Gil Colson, interpretado por Peter Sarsgaard. O jornal diz que o início lembra um filme como Saw, mas reclama que os enigmas do Charada não são particularmente engenhosos nem tão importantes para a história.

Na parte técnica, a fotografia é de Greig Fraser, que filmou com a tecnologia de produção virtual StageCraft, da Industrial Light & Magic, e a trilha é de Michael Giacchino. O filme tem mais de 1.500 planos de efeitos visuais e está entre os de super-heróis mais longos já feitos. O Guardian fala de um desenho de produção formidável, de set pieces espetaculares e de impactos que vêm da escuridão e fazem tremer o esterno. Reeves foi buscar o lado detetivesco do herói nos filmes de Alfred Hitchcock e no cinema da Nova Hollywood, além de quadrinhos como Ano Um e The Long Halloween. Um herói que investiga antes de bater dá ao filme um eixo claro, e é por ele que o resto se organiza.

A desigualdade aparece na própria estrutura de Gotham. O Punch Drunk Critics lembra que o sonho de Thomas Wayne, pai de Bruce, de se candidatar a prefeito e o ambicioso projeto Wayne Renewal viraram pó. Nada se renova na cidade a não ser o crime. O Film Colossus identifica na renovação o grande tema do filme e observa que os motivos de Bruce para ser Batman são, no começo, de vingança.

O último trecho é onde o filme perde o fôlego, e o Guardian é franco nisso. O jornal diz que a saga de corrupção, que começa intrigante, degenera num terceiro ato cansativo, que o filme é longo demais e que o final é fraco e envergonhado, desviando da crise existencial do próprio Batman. Lembra também que, por um tempo, o filme promete um mistério sobre corrupção municipal e um desfecho satisfatório, algo que não entrega. A objeção é justa: um filme montado como investigação deveria resolver a investigação à altura do que prometeu. Duração, tom e terceiro ato foram, aliás, os pontos que a crítica em geral mais questionou. Quem sai da sessão com a impressão de um grande começo e de um final frouxo não está sozinho.

Na bilheteria, Batman arrecadou mais de 772 milhões de dólares no mundo, contra um orçamento de 185 a 200 milhões, foi a sétima maior bilheteria de 2022 e o maior sucesso da Warner Bros. entre os lançamentos da pandemia. Recebeu três indicações ao Oscar. A continuação, The Batman: Part II, tem estreia marcada para 18 de fevereiro de 2028. Reeves tirou o herói do universo compartilhado do DCEU, do qual Ben Affleck era o astro, e o recolocou num filme autônomo, com um Batman mais jovem, no início da carreira.

No fim das contas, é um policial sombrio e longo, que prefere o detetive ao justiceiro. Rende mais quando acompanha Pattinson, Wright e Kravitz diante de uma cidade sem esperança do que quando precisa fechar os próprios enigmas, e o terceiro ato fraco que o Guardian aponta é um defeito real. Ainda assim, o Charada aterrorizante de Dano e as imagens de Fraser dão ao filme uma identidade própria, que o torna difícil de confundir com qualquer outro Batman.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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